quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Delicada

Afrouxando seu abraço gelado, a água acariciava-me por inteiro à medida que eu avançava lentamente para a superfície, por entre asteróides luminosos que subiam dos seixos espalhados no fundo do rio, os pulmões ansiosos por ar, os olhos ansiosos por mais beleza.

Na pequena trilha, a luz, caindo do céu aos jorros, estatelava-se de encontro às folhas mais altas e respingava para todos os lados; e, se não era suficiente para aquecer minha pele, inundava minha mente com cores, formas, texturas, perfumes e sons, ao estalar, metamorfosear-se, roçar-me, recender e mimetizar a alma do planeta de encontro à minha.

Bendita seja a Terra, que me afaga como se tanta grandeza não fosse nada.

. . .

És menina do astro sol
És rainha do mundo mar
Teu luzeiro me faz cantar
Terra, Terra és tão estrelada

O teu manto azul comanda
Respirar toda criação
E depois que a chuva molha
Arco-íris vem coroar

A floresta é teu vestido
E as nuvens, o teu colar
És tão linda, ó minha Terra
Consagrada em teu girar

Navegante das solidões
No espaço a nos levar
Nave mãe e o nosso lar
Terra, Terra és tão delicada

Os teus homens não tem juízo
Esqueceram tão grande amor
Ofereces os teus tesouros
Mas ninguém dá o teu valor

Terra, Terra eu sou teu filho
Como as plantas e os animais
Só ao teu chão eu me entrego
Com amor, firmo tua paz

(Milton Nascimento e Marcio Borges, "Estrelada")

Fora do meu Lar

Fora de casa o cheiro de lar me abraça com sua melodia matinal, lembrando-me de que eu gosto muito de lar.

Ficar solteiro é o caralho, eu gosto mesmo é de ser dois, três, mil, dentro da minha casa transformada em lar, em família, em doçura de vida em conjunto, refratando-me em duzentas mil cores, em milhões de suaves sons, na tranquilidade de me dividir.

Pra que eu sirvo, só?

Esta manhã vai ser foda.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sweet Dreams

Sweet dreams are made of these
Who am I to disagree?
I travel the world and seven seas
Everybody is looking for something

(Annie Lennox, "Sweet Dreams")

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Segredo

Desde aquele carnaval ela sentiu uma necessidade enorme de ter segredos para mim. Tudo, mesmo as coisas mais banais, tornaram-se segredos impenetráveis. Soube hoje, por acaso, do casamento, com alguns dias de atraso... Pelo jeito a necessidade persiste, embora as outras coisas já tenham morrido. Isso foi somente mais uma deselegância. Eu vou acabar me habituando.

Pergunta: Isso é algum tipo de receio? De mim??? Por quê???

Pergunta: o que eu tenho a ver, agora, com a vida dela? (Opa, isso não é pergunta que eu faça, apenas uma previsão da pergunta mais natural do mundo, e que ser-me-ia feita muito naturalmente.) Nada. Eu só fiquei constrangido por haver falado com os esposos por esses dias e não os haver felicitado, o que poderia passar por uma deselegância da qual eu sou incapaz. Credo, fiquei alérgico a mal-entendidos, má interpretação, má fé obscura e má vontade.

Liguei e parabenizei, mas não como eu teria gostado, porque o meu mal-estar não me deixou dizer o que eu queria ter dito, de verdade: que eu desejo toda a felicidade e que as coisas boas suplantem, suplantem, suplantem, as coisas que não forem as coisas boas no novo casamento. Ela provavelmente não iria acreditar, mas eu teria dito exatamente isso. Eu sou assim. Não é segredo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Tu + 10

A saída do gigantesco espaço do teatro é complicada, mas as ruas são agradavelmente iluminadas no caminho.

Distraído, perco a entrada de casa e sou forçado a tomar o retorno pouco usado pra voltar. Como sempre, está escuro e me preocupo se estou fazendo algo errado. Aproveito e troco o dinheiro pra ti, e me deves R$ 55.

Ao estacionar, vejo que vocês haviam descido do carro antes mesmo que eu fizesse o retorno e, no portão da frente, meus 55 estão postos delicadamente num canto da passagem, onde eu possa vê-los.

Tua oferenda aos anjos está sobre o muro largo; cuidadosamente recolho a vela apagada pela chuva suave, juntamente com o meu pente rosa que esqueceste junto.

O filhote, ardilosamente escondido na penumbra da cadeira da varanda, me surpreende com uma risada boa, enquanto queixa-se de que dá uma preguiça danada enfrentar as dificuldades de entrar pela porta, esperando que eu o pegue no colo e o ponha na cama.

Sais de casa rindo ao meu encontro, enquanto te admoestas por haver esquecido a oferenda e avisas ao filhote que, por isso, terão de fazer a oferenda de novo, em redenção.

Vestes somente a tua pele luminosa no corpo de fada, cintilando no ar à luz das estrelas órfãs da lua e, se não me amas, tampouco me desprezas; e recebes sem desdém o meu carinho, meus beijos e até me tomas como porto seguro onde podes dizer, como se isso fosse algo ruim, que hoje és Tu +10, sabendo que eu vou dizer que estás, por isso mesmo, ainda mais linda!

Imagina, até te agradeço por tudo, numa síntese da cerimônia das pétalas, que ensaiei no dia D mas que não pudemos realizar...


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Luz e Mistério

Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti

Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Doçura de luz
Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Oh grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz

(Beto Guedes e Caetano Veloso, "Luz e Mistério")

domingo, 14 de setembro de 2008

Nothing Gold Can Stay

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day
Nothing gold can stay.

- Robert Frost, "Nothing Gold Can Stay".

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Em defesa do relativismo suave

Pela segunda vez "chupo" um artigo de outro blog -- e vou fazê-lo sempre que o texto valer a pena, ora bolas. No caso, uma bem-humorada defesa do relativismo, esse inimigo das consciências -- e também da insônia.

Quem escreve é João Pereira Coutinho, colunista da Folha. Degustem.

Em defesa do relativismo suave

O problema do mundo é não ser um pouco mais relativista. Eu sei, eu sei: o relativismo é mau, dizem, porque a idéia de que os valores dependem de meras escolhas individuais, sem nenhuma justificação externa ou racional, é uma fraqueza epistemológica e ética da maior gravidade. Fato. Mas eu falo de um relativismo ligeiro, um relativismo banal, o relativismo das coisas menores. Como um tempero que se coloca sobre o prato da vida, só para dar algum sabor mortal a tudo o que fazemos e sentimos. É o relativismo suave que ensina que nada tem uma imporância tão absolutamente esmagadora quando o fim é certo e o esquecimento também.

Lembro tudo isso com notícias que leio na imprensa portuguesa. Nos últimos dias, soube que 32 mulheres foram assassinadas em 2008 por seus namorados ou maridos. Existem cenários macabros de homens que apontam uma arma e disparam sem pestanejar em plena via pública. O resto é igualmente macabro: estrangulamentos, espancamentos, envenenamentos. O diabo a quatro. Motivos? Passionais, sempre passionais: o homem descobre, ou suspeita, que a mulher não é casta. E num gesto de loucura, comete a loucura.

E então recordo uma conversa que tive uns anos atrás com um amigo, em São Paulo, e o relato que ele me fazia de um conhecido jornalista que entrara em cenário idêntico: descobrira que a namorada, mais jovem, se afastara dele para procurar uma "nova vida", como se diz nas telenovelas; e ele, de cabeça perdida, incapaz de aceitar a rejeição, pegou na arma e fez o que fez. Arruinou a vida, a carreira, os amigos, a família, e etc. etc. etc.

Ouvi a história e perguntei aos meus pobres neurónios se eu seria capaz disso: amar uma mulher ao ponto de a matar por despeito. E a resposta, toc toc toc, é negativa. Tudo por causa de meu relativismo suave, que me acompanha dia após dia como um animal de estimação. Sim, tenho minhas fúrias, como qualquer pessoa racional. E existem momentos de um desespero tão profundo, e tão medonho, que chorar é um luxo. Mas mesmo quando o demónio se intromete na pacatez dos meus dias, existe um lado de mim que ri dele. Como se o espírito deixasse o corpo e, planando sobre a carcaça, contemplasse o absurdo da minha condição. O absurdo da condição humana. E uma voz invisível segreda-me ao ouvido: será que vale a pena, companheiro? Será que vale a pena tudo isso quando tu estarás morto no futuro médio? E, depois da voz, vem a imagem: como num filme de Bergman, eu, velho e morto, em caixão aberto.

O relativismo liberta-nos para fazer o mal, como acreditava Dostoiévski? Não creio. Em doses temperadas, o relativismo é um convite para não fazermos o mal. Ele esvazia o nosso patético ego como uma agulha que fura o balão de uma criança. E ele é sobretudo útil em matéria de amor: somos amados, magoados, atraiçoados. Acreditamos que, depois do abandono, teremos uma dor inultrapassável, que se vai prolongar pelos séculos seguintes.

Mas a verdade é bem mais triste e, paradoxalmente, bem mais feliz. Tudo passa. A dor vai diluindo-se em tristezas menores, que ficam como o pó esquecido nos cantos da casa. E certo dia descobrimos que o tempo cobriu tudo com invisíveis mortalhas; e o passado é o porto de onde a nossa embarcação já se afastou há muito. Vemo-lo ao longe, por entre a neblina. Mas não há regresso.

Desesperado leitor: se achas que a dor de hoje te autoriza a tudo, lembra-te que és nada e que a tua vida será nada. E festeja essa certeza com a alegria sincera dos náufragos resgatados.

João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.E-mail: jpcoutinho@folha.com.br Site: http://www.jpcoutinho.com

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Ups

De repente eu tinha saído da infância. Conhecia truques, tinha legiões de amigos e, uhu!, namorada!, que arranhava meus pulsos porque tinha lido, em algum lugar, que isso causava excitação sexual.

Tive dois bebês. Não fiz quase nada direito da primeira vez, mas me esforcei muito e, se pudesse, refaria tudo aquilo onde errei. Juro. Da segunda vez eu já era senhor do meu destino e dono de castelo. Minha mulher era a coisa mais importante do mundo, tanto quanto obter reconhecimento pelo meu trabalho. Brinquei de carrinho na barrigona, fiz novamente todas as preces e orei por todas as bênçãos. E elas vieram!

É bastante triste não os ter comigo. Mas as lembranças são verdadeiros sonhos. Eu devia ser mãe. Nunca nunca nunca nunca nunca nunca os separariam de mim.

Fiquei solteiro

Isso há de se tornar uma coisa boa. Né?

terça-feira, 15 de julho de 2008

No aeroporto

Acordei muito antes do despertador. Bagagem pronta, banho rápido, um breve passeio pelos jornais na Internet e partida. Nem precisava chegar tão cedo ao aeroporto, mas a ansiedade que me move há semanas não pode mais ser reprimida: quero, sim, chegar.

Se bem que deixei tudo para a última hora: arrumei a bagagem na véspera, fui comprar o presente do meu filhote na véspera, documentação na véspera... uma parte de mim nem quer ir, e entendo bem por quê.

Mas vou!

Vou encerrar isso tudo pra começar de novo. Os degraus estão mais altos, as possibilidades de escolha diminuem, mas agora tenho asas (espero) e vou voar com elas.

. . . . . . . . . .

Hoje faz um frio infernal (hahahaha) em Brasília. A mesa de mármore, congelada, torna um sacrifício usar o mousezinho (tenho rixa com o tal do "synaptics pointing device", o mouse do laptop, que, de tão besta, nem tem nome, é "device"). A temperatura da corrente de ar que sopra da pista de pouso deve estar muito perto do zero, porque, a essa altura, minhas mãos estão congelando e a melhor maneira de evitar a paralisia é continuar escrevendo...

. . . . . . . . . .

Fico pensando nas diversas reações que a minha chegada trará. A melhor de todas será a do meu filhote, que, sem surpresas, ficará, sim, muito feliz em me ver. Os abraços dos manos, a grande satisfação deles, o abraço saudoso da minha mamãe tão querida e que nem curti direito nesses últimos 27 anos... O abraço do meu pai, meu pai.

Mas.

Tem um divórcio no meio do céu. Oro para que tudo dê certo, tudo se resolva bem, tudo fique bem, minha dor fique num canto e morra, ela fique bem, eu fique bem, Vic fique bem.

God willing, vai passar e, dizem os oráculos, eu vou ser feliz... é muito importante, para a sobrevivência dos oráculos, que eles digam coisas assim; e também, irra, é bom ouvir. O que seria da vida sem esperança? Que vivam os oráculos e, como diria Zé Xico Barbixa Magno, venha o que tiver de vir -- desde que seja bom, af!

Jampa, lá vou eu.

sábado, 12 de julho de 2008

Más Allá

Cuando das sin esperar
Cuando quieres de verdad
Cuando brindas perdon
En lugar de rencor
Hay paz en tu corazón

Cuando sientes compasion
Del amigo y su dolor
Cuando miras la estrella
Que oculta la niebla
Hay paz en tu corazón

Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón

Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas

Cuando brota una oracion
Cuando aceptas el error
Cuando encuentras lugar
Para la libertad
Hay una sonrisa mas

Cuando llega la razon
Y se va la incomprension
Cuando quieres luchar
Por un ideal
Hay una sonrisa mas

Hay un rayo de sol
A traves del cristal
Hay un mundo mejor
Cuando aprendes a amar

Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón

Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas

Cuando alejas el temor
Y prodigas tu amistad
Cuando a un mismo cantar
Has unido tu voz
Hay paz en tu corazón

Cuando buscas con ardor
Y descubres tu verdad
Cuando quieres forjas
Un manana mejor
Hay paz en tu corazón

Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón

Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Phone chat

- Hello, Eve?
- Yes?
- It's Norman, how are you?
- Oh, hi, Norm! How are you?
- Fine! Look, I was checking some old papers and ran into one with your phone number on it. I hope you don't mind I'm calling.
- No, not at all!
- Look, I have been thinking about you over the last few days and thought that maybe we could meet tonight and talk a little?
- I - uh - I do not understand... is there any special reason for that?
- Well, the special reason would be you! (just thinking: "OMG I can't believe I just said that")
- ... well, heh, I have a previous arrangement for tonight, but maybe some other time... I will be traveling next Thursday, but...
- I will be traveling by Tuesday too, so maybe we could talk sometime afterwards. Maybe I could call you again when I come back...
- OK, that's fine. See you!
- See you!

Melhor Vinho


Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente
Aquele que tu bebes, docemente,
Com teu mais velho e silencioso amigo.

Mário Quintana

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A Cor do Amor

Minha casa está repleta de amor. Já houve tanto amor aqui dentro que o lugar terá boas vibrações por muitos e muitos anos, sem reabastecimento. Os momentos que não foram de amor foram todos apagados e ficou somente aquela cor dourada das coisas boas.

É aqui que eu vivo.

Este é o meu lar.

Minha casa sente saudades, como eu, da alegria de outros tempos. Mas está cheia de amor, e o amor vai fazer a alegria voltar.

Começar

Nos últimos dezenove meses, levantar da cama tem sido um esforço de otimismo. O sonhos nem me deixam escolher como o meu dia vai começar. O que faço é criar um dia novo pra mim todos os dias, vencendo a saudade, a solidão, o cansaço, o desamor e a vontade de desistir.

Aninha foi o resultado mágico desse não-querer desistir; a consolidação da poeira mística da minha vontade de sobreviver, de me reharmonizar e ficar feliz por mais tempo. Agradeço a ela e à sublime mecânica do Universo pelos maravilhosos presentes recebidos: alegria, afeto, afeição, carinho, ternura, comunhão, dedicação, cuidados, e até amor! Não lhe pude dar muito em troca e fico triste com isso. Deus lhe pague e lhe acompanhe e lhe conduza em Suas mãos!

Meu caminho agora é meu e devo assumir essa responsabilidade -- será a minha primeira vez? Eu já fiz isso muitas vezes antes, quando tinha a vida toda pela frente. Depois do fim dos meus sonhos, e agora que cruzo a fronteira entre chegar e ir embora, a responsabilidade é maior e o caminho está solitário.

O que vou escolher? Como vou viver? Como arrumar tudo isso? Como começar com o que tenho?

Vamos ver. Tenho o bastante para começar. Tenho filhos e pais e irmãos e talvez amigos que dependem de um gesto meu, e a responsabilidade por eles me mantém de pé. Superar a tristeza, vai dar certo. Força!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pacto de Vida

Ter de resistir à dor, à dor
Sem comprender por que a dor, a dor
Ter de suportar viver a dor, a dor
E sem merecer a dor, a dor

Se é esse o meu destino, quem é o algoz que o traçou
Quem me contaminou
Quem me doou a dor


Homem não existe para ser só animal
A sua história é mais que corporal
Abre o sentido para ter a liberdade
Com todo mundo que é seu igual
e solidário

Pensará...
Amará...
Sonhará...
Saberá...
Que a felicidade da cidade não tem que o mato matar

Aí a dor vai nos unir

O fim da dor começa é assim
É o filho que não para de crescer
A fruta que vai madurar
Aquela mão, aquela paz, morena, é aquele olhar
Que é sempre verde, verdejar
É aquele gesto humano,
É aquela voz humana,
É aquele amor humano, que chega e diz que vai ficar.


(Milton Nascimento e Fernando Brant, Yanomâmi - Pacto de Vida)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Lembrando-me de mim

Ganhei mais um presente! Uma mensagem de Jê trazia uma lembrança remota de mim -- e foi bom lembrar de mim, de como eu queria ser, de como eu quero ser, de como eu sou. Beijo Jê!

“Hoje acordei com saudades
De voar na imensidão de mim mesma
E entre meus guardados,
Procurei minhas asas
- houve um tempo em que voava -
E me perdia numa estranha alegria
Escutando o vento

Agora outra vez
Pelo céu quero voar
E, por sobre a muralha desta vida,
Construir meu momento.
Sem medo,
Deixar-me envolver na mais doce loucura
Lançar-me nesse vazio,
E absorver o silêncio profundo e vasto
Que me dá todas as respostas
Hoje quero voar
Libertar o coração das amarras,
Deixá-lo livre
Para desvendar os horizontes
Viver o sonho mais sonhado.
E, num ato encantado,
dormir no colo da lua.”

Atravessando os meus temporais

Hoje fui à página de Beth pra deixar um abraço de aniversário e acabei ganhando um presente: uns versos de Lenine, fluentes e bons de se pensar a respeito, que tomo a liberdade de colar no meu mural. Uns versos tão bons que parecem comigo, contigo, com ela, com eles...

"Andei pra chegar tão longe
Daqui de longe eu olhei pra trás
E foi como ver distante
Eu atravessando os meus temporais
Sonhei muito diferente
Eu bati de frente, corri atrás
E foi como se eu soubesse
Inverter o tempo e arriscar bem mais
Andei pra chegar mais longe
E de lá de longe me ver feliz"
Lenine

terça-feira, 17 de junho de 2008

How Can I Go On

(Freddie Mercury and Mike Moran)

When all the salt is taken from the sea
I stand dethroned, I'm naked and I bleed
But when your finger points so savagely
Is anybody there to believe in me
To hear my plea and take care of me?

How can I go on, from day to day
Who can make me strong in every way
Where can I be safe, where can I belong
In this great big world of sadness?
How can I forget those beautiful dreams that we shared
They're lost and they're nowhere to be found
How can I go on?

Sometimes I seem to tremble in the dark, I cannot see
When people frighten me
I try to hide myself so far from the crowd
Is anybody there to comfort me
Lord, take care of me

How can I go on
From day to day
Who can make me strong
In every way
Where can I be safe
Where can I belong
In this great big world of sadness
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared
They're lost and they're nowhere to be found
How can I go on?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Pra acalmar

Tô preso dentro de mim
e esperneio e grito e me debato tanto
que o meu corpo, atônito, se locomove
dança, corre, caminha
arruma a casa e trabalha e dorme
pra apagar o fogo que o queima de dentro sem poder sair!

Eu quero a vida, a liberdade, o amor, a alegria
de que o meu corpo desfruta às vezes
e de quando em vez
eu só queria
um dia
dançar, correr, caminhar
arrumar a casa e trabalhar e dormir
como ele faz
e deixá-lo fazer tudo isso
em paz.

sábado, 17 de maio de 2008

A Ilha

O chato do amor é que vicia. Se você se habituou a viver rodeado(a) de amor, nunca mais vai querer viver de outra maneira. A saudade é um tipo de fome.

Ah! Quem me dera ir-me contigo agora
A um horizonte firme -- comum, embora!
Ah ! Quem me dera amar-te sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar que nem presumes!...

Ah! Quem me dera ver-te sempre ao meu lado
Sem precisar dizer-te, jamais: "cuidado"!
Ah! Quem me dera ter-te, como um lugar
Plantado num chão verde para eu morar-te!

Ah! Quem me dera ter-te,
Morar-te até morrer-te.

(Vinicius de Moraes, "O Mais-que-Perfeito")

Como não dá pra simplesmente desplugar e ainda há agravantes como o karma, depois que o mar secar e você perceber que não existe ilha e mar, somente ilha, provavelmente a melhor coisa a fazer é procurar mais amor. Aí começa o perigo: há gradações de amor e, pra piorar, há também quantidade! Claro que um amor dos bons suplanta todo o resto e faz desaparecerem mar e ilha, e tudo se torna amor. Mas isso já é um absurdo e um excesso, que todos nós já provamos (azar de quem não provou, porque é bom!), mas do qual não queremos uma segunda dose. Ah, ok, tá bom, queremos sim.

Voltando ao perigo: eu acho que nenhum amor começa em sua plenitude. Vai crescendo. E é muito bom ter paciência quando for buscá-lo de novo, porque dificilmente o novo amor vai ter de imediato o mesmo sabor, a mesma abrangência e causar o mesmo pulsar, no corpo todo e na mente, que aquele outro, excessivo (bah), causava.

Em suma: nada de estragar o novo amor (seja lá a que for!) com desapontamentos derivados de expectativas imprudentes.


U2 - "Window in the Skies"

Falando de amor, aproveitei pra me vingar do U2, que proibiu que o YouTube permitisse (afe, nunca mais direi uma coisa dessas) a incorporação desse vídeo inacreditável. Taí, inseri no meu blog. Vão encarar? Amo vocês, nem que seja à força!!!

O exótico parágrafo acima (esse aí, sobre o U2) traz à luz sentimentos como vingança, opressão, ciúmes e violência, que têm sido espertamente vinculados por alguns ao amor, mas que estão mais para a satisfação do ego do que da alma -- e que, portanto, guardam uma distância infinita do verdadeiro amar.

Amar, como eu já disse, deve ser limpo, transparente, correto, justo e, se possível, perfeito.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Quando penso que esqueci


Eu já esqueci você, tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa,
sua cama
Sua carne, seu suor
Eu pertenço à raça da pedra dura.


(João Bosco, "Memória da Pele")


sábado, 5 de abril de 2008

A Revelação de Anna e Willis e as Notas Acessórias

Do alto, assistíamos à argumentação agitada dos quatro.

“Tão reduzidos estão que sequer perceberam que o telhado da casa sumiu”.

“Vamos falar com eles? Já começamos, então vamos terminar isso”.

“Tem certeza”?

“Sim”.

“Então que seja”.

Chamamos a atenção dos quatro e os retiramos do estado de exclusiva visão do inferior; descemos e nos reduzimos e, num instante, tínhamos a forma humana. Eles estavam estarrecidos, claro, mas entenderam imediatamente que algo absolutamente novo estava acontecendo. E sentiram o perigo. E esperaram que falássemos.

Acalmamos a todos e o casal mais velho saiu. Ficamos com Anna e Willis na ante-sala decorada no estilo sóbrio, simples e alegre da classe média norte-americana dos anos 70.

“Bem, vocês têm o seu grande problema nas mãos. Isso não vai ser fácil”.

Anna tinha os olhos muito abertos e a expressão apreensiva. Willis sentia-se perdido.

“Vocês amam-se muito, não”?

Não era preciso responder a isso.

“Fariam qualquer coisa um pelo outro”?

Eles entreolharam-se.

"Qualquer coisa que fosse lícita, moralmente correta, e exclusivamente entre vocês dois”?

“Sim”.

“Willis, parta”.

Ele foi.

“Anna, Willis vai viajar. Durante essa viagem, ele morrerá. Você receberá de volta as coisas dele, em uma sacolinha de algodão cru. Três objetos apenas, e mais uma coisa que somente você saberá que está ali. Resista e vocês serão recompensados. Tenha paciência. No quinto ano, você receberá boas notícias, quando a sua dor já tiver sido dominada. Adeus, pequena. Persevere”.

No tempo certo, a sacolinha chegou, e Anna viveu a sua dor. Willis não voltaria. Mas ela teve confiança; a confiança fez com que sua dor fosse aceita e, assim, isso não a matou. E ela pôde, aos poucos, voltar a viver.

No quinto ano, Anna esperava um filho. Era um menino lindo e, quando nasceu, Anna viu novamente a sacolinha guardada e, nela, uma mecha – os fios do sinal que Willis tinha na coxa esquerda. A criança tinha um sinal igual e sorria para ela como Willis sorriria ao voltar para casa.

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Notas acessórias do despertar de 5 de abril de 2008:

A imagem é de que, nesta vida, nossa vida em conjunto é um casulo cheio de um amor triste. É um casulo saudável, vivo, luzidio e forte, que almeja, como todo casulo, tornar-se ninfa e, depois, vir a ser algo maior. Mas que percebe permanecer um casulo: saudável, vivo, luzidio, forte; precioso, sim, mas sempre um casulo triste.

sábado, 29 de março de 2008

Amigos

Desde quando me lembro, sempre tive multos numerables amicos. Os primeiros foram meus primos: Paulo, companheiro de muitas descobertas e de muitas afinidades; e Pinto, com quem desbravava os quintais em Mamanguape. Na escola primária tinha Augusto, que me parece ter sido meu primeiro amigo que não era um parente. Ele era neto da diretora e, durante algum tempo, eu pensei que o nome da escola (Escola Particular Augusto dos Anjos) se devesse a ele.

Depois, no Pio XI, fiquei amigo de um garoto cujo nome eu nunca soube realmente. Ele sabia o meu, e eu tinha vergonha de perguntar: achava que tinha obrigação de saber o nome dele. Fiquei chamando de 51, que era o número dele na chamada. Éramos ambos retardatários e ficamos no fim da lista. Meu número era 55. Ele era um dos sujeitos mais legais que já conheci.

No CECA comecei a fazer uma quantidade maior de amigos. Vou tentar enumerar alguns: havia Luciano, com quem eu trocava golpes de judô e karatê no horário do intervalo, rolando no chão aos apertões, socos de mentirinha e alguns pontapés. Era um amigão, sujeito bem-humorado e de grande espírito esportivo. Foi com ele que fui pela primeira vez ao teatro, fazer um teste para ator, que não deu lá muito certo.

Havia os rapazes que lideravam o movimento no colégio, e que me aceitaram entre eles -- penso que nem tanto pela minha habilidade atlética, mas principalmente pela minha incomum generosidade durante as provas e disponibilidade total para compartilhar conhecimento. Lembro agora de Robson, Zaqueu, Wanderley e Roginério; das gêmeas Glória e Gorete, Valéria, Gêneva e uma amiga que perdi por haver dado um chega-pra-lá num guri chato que depois soube ser irmão dela. Ah, e Zé Carlos, que tinha um bruta som e morava perto do colégio. Fiquei amigo de alguns dos amigos do meu primo Paulo, como Clóvis, e chegamos a formar uma banda de rock chamada NoPloCló (hahahahahahaha) que dispunha de um baixo feito de isopor, uma bateria composta por várias panelas e caixas de papelão, e um gravador pra gravar nossos rocks heavy metal berrados por mim em um inglês engraçadíssimo, imitando Robert Plant.

Vieram depois os amigos do Lyceu. Meus três anos de segundo grau me proporcionaram um número de novas amizades que ultrapassa minha capacidade de lembrar de todos eles. Basicamente, eu queria a amizade do pessoal do Grupo Folclórico, do Coral e do pessoal que fazia música no colégio, como Dida Fialho, Tom Ray, Lis e um grupo de Jaguaribe com o qual tive o privilégio de tocar algumas vezes. Houve os amigos do Grupo de Flauta Doce do SESC: Joaquim, Berna (através de quem tive o privilégio de conhecer Fernandito, hoje Fernando Pintassilvo) e Roderick.

Conheci Milita, Soraya, Tadeu Mathias, Marta, Gorete Irineu, Espínola.

Depois, já na faculdade de Economia, trabalhando pra manter minha nova família (Mônica e Kaio) conheci Saulo Barreto, Dr. Guilherme Rabay, Dr. Carneiro Braga e Dona Lígia, Hugo Brito, Emídio, Ilene Helfand e aqueles que seriam os amigos que a distância não separa e o tempo não apaga: Sérgio Carneiro e Paulo Machado.

Este post não se dedica às grandes almas que namorei, mas algumas das pessoas que tive o privilégio de namorar tornaram-se minhas amigas pela vida afora: Jê, Verinha, Mônica.

Minha péssima memória me impede de lembrar de muitas e muitas outras pessoas que, em alguma época, aqueceram meu coração e marcaram a minha alma com sua amizade. Irei acrescentando os nomes à medida que as lembranças forem voltando ou quando justos protestos se fizerem ouvir. Peço a compreensão dos que ainda não enumerei aqui.

Minha vinda para Brasília tinha a finalidade de arranjar-me um novo futuro, já que em João Pessoa não havia muitas oportunidades de trabalho para mim. Aqui conheci muita gente com quem trabalho até hoje. Fiz algumas boas amizades no trabalho, como Marcelo Gurgel, Eduardo Dantas, Marcelo Kasbergem, Álvaro Valente, Laércio Atuati.

Conheci as pessoas simples e muito amáveis do Planat: chegaram a preparar uma festa-surpresa no meu segundo casamento, na casa do querido João Batista. Jaime Lennon, Elias, Lili...

Infelizmente, hoje em dia sinto-me incapaz de dar profundidade às minhas amizades. Talvez o clima de Brasília favoreça o descompromisso e as amizades puramente de trabalho. Ou talvez, mais provavelmente, o problema seja eu mesmo.

Sinto falta de ter amigos. Mas a culpa é minha: gosto mesmo é de ficar em casa e durante todo o tempo em que vivo em Brasília fiquei centrado apenas no trabalho e na minha família, que era o meu mundo todo: Claudia e Victor.

Depois da separação procurei fazer novas amizades, e conheci pessoas muito muito simpáticas na Comunidade do Vinho. Voltei a alimentar a enorme amizade dos meus irmãos. Procurei expandir meus horizontes, mas ainda há muito trabalho a fazer até que eu seja novamente digno de ter amigos. Faltam-me, hoje em dia, as principais faculdades para conquistá-los e mantê-los: dedicação generosa, consideração e franqueza. Tornei-me um poste ou uma parede. Espero poder sair de dentro de mim logo, antes que a vida passe. Gostaria de ter alguns amigos que dissessem dois ou três elogios no meu funeral.

domingo, 23 de março de 2008

Errante

(Florbela Espanca - 23/04/1917)

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…

Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…

Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Poema de aquecer o coração em três quartos

O vinho é bom pra entortar a alma
E desabrir a vida
E desatar a brida
E derrubar a porta
E acompanhar a massa
e reverter a mossa
e pra ninar promessa
e devolver as horas
e esquecer da dor.

Também é bom pra esquecer do amor
E ruminar o verso
E refazer o ser
E arrumar a casa
E se aninhar na asa
E perfumar a rosa
E acordar em paz.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Quase falei

..."Se eu cantar a alegria sai falsa
Se eu calar a tristeza começa
E eu prefiro dançar uma valsa
Que ouvir uma peça

E eu recuo, eu prossigo e eu me ajeito
Eu me omito, eu me envolvo e eu me abalo
Eu me irrito, eu odeio, eu hesito
Eu reflito e me calo."

(Sueli Costa/ Paulo César Pinheiro)

sábado, 1 de março de 2008

Does Your Life Have a Vision or are You Blowing in the Wind?

Chupado do Blog de John Wesley: (http://www.pickthebrain.com/blog/does-your-life-have-a-vision-or-are-you-blowing-in-the-wind/)

The E-Myth Revisited - Michael E. Gerber

"Great people have a vision of their lives that they practice emulating each and every day.

They go to work on their lives, not just in their lives.

Their lives are spent living out the vision they have of their future, in the present. They compare what they’ve done with what they intend to do. And where there’s a disparity between the two, they don’t wait very long to make up the difference.

They go to work on their lives, not just in their lives.

I believe it’s true that the difference between great people and everyone else is that great people create their lives actively, while everyone else is created by their lives, passively waiting to see where life takes them next.

The difference between the two is the difference between living fully and just existing. The difference between the two is living intentionally and living by accident".

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Longe e Perto

Chegar a Congonhas é metade do caminho de volta pra casa, e me enche de alegria. Nem mesmo a longa fila da água caríssima da Casa do Pão de Queijo me enche o saco a ponto de diminuir um cêntimo (uia! fui longe) do prazer de voltar. Esperar, embarcar, decolar, ver São Paulo reluzir e apagar-se lá em baixo, dormir um pouco, chegar!

E, no entanto, chegar parece uma daquelas operações em que se divide um número pela metade, e o resultado novamente pela metade, repetindo a operação infinitamente, chegando-se cada vez mais próximo do zero, sem nunca chegar.

Talvez eu esteja, em Congonhas, mais perto do meu lar do que quando, finalmente, chego em casa.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Encontros e Despedidas

(Milton Nascimento)
Mande notícias
Do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando...

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem
Da partida

A hora do encontro
É, também, despedida
A plataforma desta estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Blackout do Messenger

Folha Online - 27/fev/2008 - Internautas em várias partes do mundo tiveram dificuldades para acessar o Windows Live Messenger, o antigo MSN, ontem (26). Alguns usuários não conseguiam se conectar ao programa ou demoraram para conseguir o acesso.


Deu no Tuvalu Times

Vários venusianos foram vistos arrancando as antenas dos satélites em órbita da Terra, só pra ver os aparelhos brigarem uns com os outros.

As mães deles (dos venusianos, não dos satélites) reclamaram e eles foram pra casa fazer as tarefinhas do colégio mas, só de pirraça, voltaram depois com sprays pra pichar o site da Microsoft. Aborrecidos porque os sistemas de segurança não permitiram a pichação, eles resolveram vingar-se derrubando tudo, inclusive os servidores do Messenger. Foram embora ameaçando voltar pra derrubar o WYD, o Grand Chase, o Ragnarok e o Hero Online tão logo acabe a tempestade solar.

Vai dar no NY Times

A NSA (não confundir com a NASA) classificou como sendo terroristas as atividades venusianas na órbita da Terra, e invadiu o planeta vizinho seguindo uma pista de que, além da possível existência de armas químicas, como sprays de tinta, no local, Bin Laden também estaria escondido por lá.

Durante o ataque, a explosão de um artefato nuclear da Agência derrubou acidentalmente o Surfista Prateado e causou um pulso eletromagnético que neutralizou as células de hidrogênio que alimentavam os aparelhos de sobrevivência da mãe dos delinquentes pichadores de Vênus, a qual sofreu falência múltipla de todos os sistemas, sendo impossível reativar qualquer um deles. O desplugamento acidental causou uma onda de protestos e manifestações violentas seguidas de saques, e a embaixada norte-americana no Taiti foi incendiada por grupos armados ligados ao Khmer Vermelho na Dinamarca.

Em Plutão, onde a população ainda está revoltada porque o antigo planeta foi rebaixado à categoria de anão, donas-de-casa saíram às ruas com cartazes e faixas protestando contra a iminente chegada da "nave imperialista" New Horizons, aos gritos de "FMI Go Home", "Internet Já!" e outras palavras de ordem do DCE do P.

A Associação dos Supernerds Neonazistas de Cacimbão da Areia divulgou uma nota de apoio às ações da NSA, afirmando ser "um absurdo que, depois de bugar o MSN, os vândalos alienígenas queiram também derrubar o WYD, justamente quando vai haver evento de triple drop de Poeira de Lac", e afirmaram em rede nacional que "se o lag piorar, vai ter peixeira no bucho dos venusianos".

A ONG "Peixeira Nunca Mais" criticou duramente a nota da ASSUNECA e teve sua sede crivada de facadas durante a noite. Um policial da delegacia em frente, que pediu para não ser identificado, disse que não viu nem ouviu nada, e que tudo não passa de boato, apesar de o prédio ter sido completamente depredado.

O policial afirmou à reportagem que não tem MSN e tem raiva de quem tem.

A verdade

Descobriu-se que o ataque de alienígenas não passava de um golpe publicitário do marqueteiro Duda Mendonça para encobrir as atividades de George W. Bush no Oriente Médio.

Segundo fontes não-oficiais, Hillary Clinton e Barak Obama estariam preparando tumultos da Ku Klux Klan na Síria para justificar uma invasão em larga escala daquele país pelas forças de Israel. A tática incluiria atacar simultaneamente o Irã a partir da frota norte-americana ancorada no Golfo Pérsico, aproveitando falsos atentados xiitas orquestrados por Fidel Castro no norte do Paquistão.

A Índia, revoltada com os atentados, atacaria, por engano, as bases dos Carecas do ABC no Tadjiquistão , abrindo as portas do Norte da China para a entrada das forças dos EUA, que criariam uma base em Katmandu para explorar as imensas reservas de gás e petróleo da região e estabelecer um oleoduto que iria em linha reta desde o sul da Mongólia até o Mediterrâneo, passando pelos países aliados e pelos ocupados pelas forças da Coalizão. As revoltas teriam ainda o apoio tático da Al-Qaeda, já que Osama Bin Laden tem interesse em ajudar os EUA, na tentativa de receber o dinheiro que emprestou ao presidente Norte-Americano quando George Bush filho quebrou, pela terceira vez, a companhia petrolífera da família.

Segundo uma fonte diplomática que não quis se identificar, a queda do Messenger teria sido causada pelo uso indevido de cartões corporativos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Queimei a pizza de novo

Não é que eu não saiba cozinhar: meu problema é não ser capaz de dedicar tempo a isso. Parece ser uma atividade secundária pra mim. Geralmente ponho no forno e esqueço. Se não fosse pelo olfato já teria produzido diamantes e outros minérios no meu forno.

A questão das prioridades é realmente determinante: escolher a prioridade errada é fatal para o objetivo almejado.

É necessário aprender a manter o foco para não queimar a pizza.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Aninha

Aninhar: de ninho

  • v. tr. - pôr em ninho; acolher; agasalhar; esconder;
  • v. int. - fazer ninho;
  • v. refl. - agachar-se; esconder-se;
  • fig. - meter-se na cama.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Cabo Branco

Poucos dias na casa dos meus pais foram suficientes para ter mais alegrias do que tive durante todo o ano que passou. Noites no mar, brisa estrelada salpicada de lua cheia, irmãos queridos, amigos, amigas, filhos dos amigos e amigas, rostos refletindo a minha alegria e felizes de me ver.

Voltei mais pesado: quilos e quilos a mais de mim mesmo, bebidos na fonte.

Pai e mãe são mesmo ouro de mina. Que vivam pra sempre! Vivam os manos, os amigos, as pessoas maravilhosas do planeta. Que voltem sempre!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Os blogs dos outros


"Os ventos que às vezes nos tiram algo que amamos são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar. Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e, sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre".
- Sarah M.F.


Nem lembro mais como é que Sarah foi parar na minha lista de amigos; na verdade nunca a vi e, durante todo o tempo em que a conheço, pouco menos de um ano agora, devemos ter trocado três ou quatro scraps. E, no entanto, Sarah, como tantas outras almas soltas por aí, ocasionalmente fala com a voz dos Mestres e, ao falar-me hoje, fez-me ajoelhar e rezar pelo meu presente e pedir pelo meu futuro.

Quantas Sarahs me falaram a vida inteira, me falam agora? Qual Sarah me fará manter, permanentemente, os ouvidos abertos, os olhos abertos, a mente quieta e o coração pensante?

"Quando o estudante estiver pronto, o Mestre virá". "Estar pronto" pode muito bem não ser algo definitivo, como a Iluminação. Pode-se, e felizmente ocorre, "estar pronto" às vezes, para coisas específicas, após uma preparação que pode ser mais ou menos breve. O importante é estar atento, perceber, refletir e exteriorizar.

"A Oração é uma ponte entre Deus e o Homem". Por um ou por uma série de motivos, ou sem motivo aparente, acontece de ficar-se constrangido diante da idéia da oração. Entretanto, pode-se orar dos mais diversos modos, e não é necessário ater-se a um modo em particular. Ore-se do jeito que se desejar, e, amanhã, ore-se novamente de outra forma, conforme o estado de espírito: quantos tipos de pontes podem existir?

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.

(Gilberto Gil)

Todas as vezes em que alguém se vê cara a cara com o Infinito sente a necessidade de externar seu momento de iluminação. Essa é a grande virtude da luz: ela busca propagar-se.

Os blogs dos outros, as canções, os scraps, os posts, as mensagens, os livros, os textos, os filmes, as imagens, frequentemente contêm a fração exata de luz que o autor pode externar após uma experiência assim. São fragmentos de luz, fótons num mar de cores.

Ser o Estudante é minerar, entrever e sublinhar, nos blogs dos outros, o que complementa o seu próprio fóton.

Curiosamente, o Mestre é a própria Luz.

sábado, 27 de outubro de 2007

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Beleza


“O espetáculo dessa uniformidade universal me
entristece e me gela, e sou tentado a ter saudades da sociedade que não mais
existe. É natural que o que mais satisfaz os olhares desse criador e desse
conservador dos homens não é absolutamente a prosperidade singular de alguns,
mas o maior bem-estar de todos; o que me parece uma decadência é, portanto, a
seus olhos, um progresso; o que me magoa, lhe agrada. A igualdade é menos
elevada, talvez, porém é mais justa, e essa justiça faz sua grandeza e sua
beleza. Procurei então me erguer até essa altura da contemplação divina, para
daí olhar e julgar os cuidados e as penas dos homens”

TOCQUEVILLE, 1989, p. 363).


A Beleza pode caminhar ao nosso lado por um caminho bucólico, iluminando a noite como se fosse a Lua; pode rir e encher de cor o dia; dar-nos um beijo e uma carícia. Ou pode caminhar adiante, sem esperar, para demonstrar dúzias de coisas ou sabe-se lá o quê.

Não há diferença entre a beleza que anima e a beleza que fere: um dia serão a mesma Beleza, para o bem ou não. Aquela mesma Beleza volta e caminha ao nosso lado, e seu perfume fere a noite; seu silêncio acinzenta o dia. Ela nada demonstra, e é o reverso do Amor:

C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais et je t’aimais
Nous vivions tous, les deux ensemble
Toi que m’aimais moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable les pas des
amants désunis.
(Jacques Prévert)

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Conhecendo o Eu interior


Ou: Uma Noite na Clínica

Existem segredos nossos que até nós mesmos desconhecemos, ou preferimos evitar conhecer. Quando esses segredos parecem guardar alguma relação causal relevante com eventos importantes em nossas vidas, chega a hora de lidar com eles e, para tanto, é necessário deles tomar conhecimento.

Imbuído de toda essa retórica filosófica e convencido, pela pancadaria dos eventos, de que a hora dos meus segredos chegara (banzaiiiiiiiiii!!!!) cedi à recomendação antiga de Claudia, à pressão de seda de Ana e ao apoio de Vera (curiosa, essa força delas) e procurei um profissional desses que, não à toa, são conhecidos nos EUA pelo singelo substantivo-adjetivo "shrink", aqui "psicólogos". A idéia era conversar, me abrir, acessar meu eu interior e todo o conjunto de assertivas neoterapêuticas.

Pois sim.

Logo ao chegar à clínica, um cidadão atento destrancou o alto portão de alambrado para que eu pudesse entrar e perguntou: -O senhor vai fazer consulta ou visita?

Desligado que sou ("consulta", eu disse), nem percebi as implicações da pergunta e, candidamente, adentrei o espaçoso hall, dotado de uma decoração agradável e de muitos sofás de aparência confortável. Fui atendido simultaneamente por duas recepcionistas que poderiam muito bem estar na base do Carro de Apolo. Muito gentil, o Dia assumiu o cadastramento do meu lado socio-econômico-profissional e o controle do meu hipocampo, enquanto a Noite, igualmente gentil, cuidava dos aspectos burocráticos relativos à minha pessoa física e capturava meu sistema límbico. Disseram-me que o médico iria atrasar o meu atendimento, pois cuidava de uma internação. Eu devia ter captado essa também, mas estava distraído. Só comecei a acordar quando, após as informações de nome, endereço, telefone e nome dos pais, a Noite me perguntou:

-Nome do responsável?

Pasmei.

- Hein? Desculpe, nao entendi. O responsável por mim? (boca aberta, dedos da mão direita no peito e sobrancelhas em riste, olhando por cima dos óculos)

- Humrum. (cara de "claro, imbecil, quem tem problemas mentais aqui é você")

- O responsável sou eu!!... (cara de "tá pensando o quê?")

Ainda estupidificado, perguntei: -Existem mesmo pessoas da minha idade que chegam aqui como eu cheguei e que têm outras pessoas como responsáveis?

- Humrum. Tem sim.

Ato contínuo, quod erat demonstrandum, um garoto de, digamos, uns 26 anos, caucasiano, de camiseta e shorts bonitos, cabelo bem cortado mas com uma cor de pele sem brilho que me fez lembrar os tanques de formol da faculdade de Medicina, parou ao meu lado, olhou-me fixamente de forma amigável e me estendeu a mão. Nem pensei duas vezes: apertei firmemente a mão tão simpática: -Oi, tudo bem? - Tudo bem.

Instruído pelas Apolíneas a aguardar na sala de espera, levei o que sobrou do meu neocórtex para o hall e passei a olhar tudo com mais atenção. Um casal sentava no sofá do fundo: a mulher parecia apreensiva, mas o homem que fumava e conversava com ela estava definitivamente em algum outro lugar. Uma senhora solitária parecia envolta em uma aura de ferro. Outros dois viam TV em uma sala separada, e pareciam bem confortáveis em seus pijamas.

Com uma sensação remota de koyaaniskatsi, resolvi tomar um chá pra ver se achava o meu planeta. O sujeito simpático brotou novamente do meu lado e disse: - "Ponha 70% de café e 30% de chá. Não cabe no copinho pequeno". Inferi que "70%" equivalem a uns 70 ml. Evitando contrariar meu novo amigo, fiz o que ele disse; e não é que ficou bom mesmo?

O sujeito eclipsou-se de novo e fui tomar o chafé na sala de TV, vendo o noticiário. Meus dois colegas de sala me olharam como a um verme e me esqueceram. Um jovem esguio e bem vestido, que parecia ser um profissional da clínica, veio e cumprimentou efusivamente os dois, ignorando-me totalmente.

Outro rapaz em shorts e camiseta sentou-se ao computador no canto da sala e começou a digitar um e-mail, enquanto limpava a garganta. E limpava com mais força. E mais forte. E ainda mais forte. Num crescendo, aquilo que começara com um simples "hum-hum!" transformou-se em um rugido respeitável, digno do melhor barítono das savanas quenianas ou das florestas canadenses e, quando eu me preparava para largar o escudo e salvar a pele em desabalada fuga, surgiu um cidadão de camiseta e músculos que perguntou docemente ao rapaz algo como "o que há, Fulano?" -- ao que o jovem levantou-se e saiu conversando placidamente com os músculos sobre sei lá o quê.

Foi quando percebi que havia telas de proteção em todos os vidros e janelas, o PC estava firmemente preso ao piso e a TV à parede, e notei a altura impressionante do alambrado que cercava a clínica. E eu tinha estacionado do lado de dentro!! Como explicar à dona do carro que o automóvel dela tinha ficado na terapia intensiva?

Estudando as possíveis rotas de fuga, notei que uma moça da clínica conversava no hall com um rapaz tatuado e forte. Ela dizia: -"Eu nunca pego o telefone dos homens; prefiro dar o meu telefone a eles". E o cara: -"É, eu também". E a moça: -"É que, se ele tiver interesse, vai ligar; se não tiver interesse, não vai ligar, entende"? E o cara: - "É". Devo confessar que a lógica do raciocínio me escapou totalmente, prejudicando de vez a minha auto-avaliação psicológica.

Lembrei que, há muito tempo atrás, fui a uma clínica de pneumologia para consultar um médico sobre uma tosse que me incomodava. Ao examinar-me, o médico me perguntara: -"Trouxe suas coisas"? E eu: - "Hein, como assim, minhas coisas"? E ele: - "É, você apresenta um quadro grave de bronquite asmática, e terá que ficar internado por quinze dias. Telefone para informar ao seu trabalho e ligue para casa para que alguém lhe traga suas roupas e outras coisas". E lá fiquei mesmo, vendo o povo morrer durante a noite e aturando a enfermeira acender a lâmpada de 300 kilowatts na nossa cara a cada três minutos pra enfiar uma bruta seringa em alguém.

Essa lembrança me deu o recado final. Pensei: - "Putz, se esse médico perceber só um pouco, vou ficar morando aqui". Saquei a chave do carro, esforçando-me para comportar-me como uma pessoa normal. Fechando as asas que se abriram dos meus calcanhares, caminhei compassadamente por entre rostos picassianos até o estacionamento, cliquei no alarme e liguei o carro. Surpreendentemente, o cara da Gestapo abriu a ponte levadiça sem qualquer pergunta e me deixou sair.

Em pouquíssimos segundos o motor 1.0 fez 80 Km/h e, antes que eu pudesse piscar os olhos, estava buscando abrigo num Schhoppinngg Scenntterr do Lago Norte, com todas as implicações psicossociais que isso possa conter. Caminhei por entre as pessoas, mesas, lojas; entrei pra olhar brinquedos; pedi sushi e sashimi com missoshiro num lugar chamado Haru (Primavera) (eu devia ter notado isso também) e sentei-me na praça a céu aberto com a Folha de São Paulo na mão; fiz quatro ou cinco telefonemas de trabalho e outras tantas chamadas pessoais, com todas as demais implicações. Tudo parecia normal. Devidamente assegurado de que ninguém tinha denunciado a minha fuga, respirei.

Na hora não pareceu engraçado.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Ordem

O dia começou às 5 da manhã, de novo, com outro daqueles sonhos que fazem você socar a cama. Choveu, e a quadra está linda. Errei o dia do compromisso e me apressei pra nada. Café com gargalhadas, dessa vez graças à demissão do gerúndio.

Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visse não
Imensa solidão

Eu sou um Rei que não tem fim
Que brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração

Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tens amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor

Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o teu caminha e o meu caminho
É um nem vais nem vou

Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs

Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assimEu canto, grito, corro, rio
E nunca chego a ti

(Caetano Veloso, " Mãe")

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Técnica x Força

Este vídeo mostra Victor, em seu combate final durante a II Copa União de Judô, em setembro/2007, quando sagrou-se campeão invicto de sua categoria. Venceu a primeira luta por ippon em 4 segundos e a última, também por ippon, em 10 segundos. Observem a agilidade nas esquivas e a garra para manter-se de pé diante de um adversário que adota o estilo europeu (privilegiando o uso da força e do tamanho). Notem também o aproveitamento da oportunidade e a perfeição do contragolpe. Detalhe para a fúria do vencido, que achava que ia ser fácil, e para o feliz e inesperado cumprimento final. Pena que a baixa resolução do filme não permita que vocês vejam o sorriso de vitória do campeão e a expressão do juiz após o cumprimento. Impagáveis.

Victor está usando kimono azul.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Tempo do Amor

"És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho
Por seres tão inventivo e pareceres contínuo
Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo quando o tempo for propício"
(Caetano Veloso, "Oração ao Tempo")

O que pode ser mais precioso do que uma pergunta assim:
- “Quando você virá de novo?”
E: - “Eu queria que você ficasse só mais uma semana”.

Pois essas foram as palavras usadas pelo intrincado labirinto da Natureza para me confortar: com a voz do meu pequeno filho, o Criador me disse: -“Recebe de volta o amor que deste”.

Somente Deus mesmo pra nos falar assim, em dolby surround stereo, diretamente ao nosso coração, mente e alma. Quando se diz que Deus é bom, nem se faz idéia de quantas interpretações essa frase pode ter, inclusive relativamente à Sua Capacidade Técnica.

Em pouco tempo abraçarei meu pequeno novamente; juntos, então, desafiaremos outra vez as ondas da Praia do Poço, salvaremos os peixinhos abandonados pelos pescadores e compraremos todos os sorvetes, pirulitos e amendoins que passarem, enquanto desfrutamos o grande amor que nos cerca.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Oração

Pra Kaio

Senhor,
Meu filho é puro, e por isso pode refletir a Luz sem mácula.
Ele é mais uma Tocha na escuridão,
e poderá iluminar o caminho para outros homens.
Protege Teu luminar, Senhor, porque ele ainda não sabe que é luz
E nem sabe como a luz é frágil.
Carrega-o em Tuas mãos como fizeste a mim,
Guarda-o,
Conforta-o
Sê seu manto e adaga, seu cajado, sua cabana.
Permite que ele diga Tuas palavras,
Que ele derrame Tua Luz sem cessar,
Ama-o e ajuda-o, que ele há de ser para Ti um altar.
Cultiva o seu coração, abre suas asas,
Mas afia suas pequenas garras, Senhor, para que ele defenda o Teu Templo.
Dá-lhe o poder magnético do Amor, que anula a escuridão.
Faze com que seu sono seja calmo e sossegado,
E que ele sempre seja capaz de ouvir os Mestres.
Eu o amo como amas a mim, e como Pai o conheço e sei que é bom.
Em nome da Verdade e da Justiça
Aqui deixo meu coração sem medo e confiante do Teu Amor.
Assim seja.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Boa sorte

(Beto Guedes)
O tema da canção
Meu coração guardou
Para dar a quem trouxer
A mensagem dos caminhos
Livres

Viagens de buscar
Sertão e beira-mar
Brincar de bem-me-quer
E uma doce companheira
Sempre

Hoje a noite serenou
Orvalho nos quintais
Acordei pensando em nós
E uma estrela caiu
Lembrei de não chorar
O tempo que passou
Lembrei de desejar
Boa sorte pra você
E o dia clareou


Risadora

Brinquei com o nome dela antes mesmo que ela nascesse: imaginei sua risada todas as manhãs e ri com a surpresa na expressão dela, ao ver seu nome transformar-se em uma outra matéria, com vida própria, um nome com lembranças próprias.

Ela vai embora ao nascer do sol, seguindo seus irmãos. Depois disso o sol e as risadas terão algo em comum; e no quarto escuro não vibrará qualquer som.

Who is Clark?

Meu nome estala. Embora tenha sido um cavalo durante a vida inteira, tenho lembranças de ter sido uma outra coisa, em um outro lugar.

A mesa é fria, a sala é fria, a luz é fria. Um motor zumbe e levanta minha mão, como se não fosse minha.

Minha mente esquadrinha minha mente com um pensamento alheio enquanto novos motores zumbem e dezenas de câmeras estabilizam a massa de plástico e circuitos impressos que se ergue como se não fosse eu.

Meu nome agora estala. Quando eu tinha um nome macio, eu poderia ter sido uma coisa da Humanidade. Isto não é um cavalo. O que será?

Venha cá, rapaz. Deixe-me olhar pra você. Você é um orgulho, mas pecará contra si. Eu o verei muito tempo depois, muitas vidas depois, terra desolada, lamentando sua perda. Nessa ocasião você verá a face da Esfinge e a desvendará através de seu próprio enigma. Você desejará ter estado mais próximo, e a iludirá com a miragem da sua presença.

Lave-se, proteja o menino. Seu tempo passou: é sua vez de se indignar.

sábado, 25 de agosto de 2007

O que há de novo?


Isso: o que há de novo para descobrir? Novos lugares, idéias, seres, ruas, lagos, pessoas, rios, cachoeiras, pratos novos?

Por falar nisso, ontem foi um dia de descoberta: a torta da Famiglia Morelli foi um caminho novo para o Nirvana, e pena que não seja possível comer o suficiente pra chegar lá. Mas é por ali também que se vai.

Hoje é dia de trabalho. Então, larguemos por enquanto o lado light da vida e labutemos nas coisas já descobertas e seguras. O trabalho é uma dádiva e graças a ele também se alcança o paraíso. Ele nos dá a tranquilidade necessária para bem aproveitar a oração, essa ponte entre o Homem e o Cósmico.

Pater noster qui es in coelis, sanctificetur nomen tuum. Adveniat regnum tuum. Fiat voluntas tua sicut in coelo et in terra, quid macroprosopis, quid microprosopis. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie et dimmite nobis debita nostra sicut et nos dimmitimus debitoribus nostris. Et ne nos inducas in tentationem sed libera nos a malo.
(Jesus, 0-33 A.D.)

Assim seja!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Espaços

Assim como acontece com a ausência da luz, os espaços deixados por ela foram preenchidos somente por um nada imenso, semelhante ao mar.

Noto com prazer que novos espaços são criados; lugares que não existiam antes, e que já nascem preenchidos por doçura, ternura, afeto e por uma nova composição muito suave. É um novo trabalho, nova trilha.

Onde vai dar?

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Filha

O que ela vai fazer quando acordar? Poderá vir, na ponta dos pés, olhar o meu sono e ficar ali a me olhar, com a respiração contida; poderá entrar embaixo dos meus lençóis e aninhar-se em mim até me acordar com um beijo; ou, moleca, cairá na risada enquanto me faz de cama elástica, esperando que eu a pegue e diga: "ah, é assim? " e a derrube e cubra de beijocas e cócegas, rolando na cama entre declarações de amor.

Ela vai pegar minha mão pra passearmos, trazendo o céu à terra com a voz de fada? Ela vai crescer e ficar a cada dia mais linda, descobrindo o mundo e me obrigando a descobrir-me? Terá um cachorrinho? Aprenderá a nadar? Gostará de jazz? Terá um nome para mim?

Quando ela vier, o planeta nunca mais será o mesmo, e ela há de me ensinar a beleza daquele momento pálido do ocaso, que hoje só vejo através do olhar da sua mãe.